Lavar o frango ou não lavar?

Lavar o frango ou não lavar?

Entra numa cozinha de família num domingo de manhã e tenta falar que não se deve lavar o frango antes de cozinhar. É pedir pra arrumar confusão.

Por incrível que pareça, esse é aquele tipo de questionamento que gera muitas discussões, no nível da política ou do futebol. 

A sua avó, e provavelmente a sua mãe também, juram de pé junto que a única forma correta de preparar um frango é tacar meia garrafa de vinagre e esfregar suco de limão com força pra retirar aquela “gosma” esquisita.

Frango fresco não tem gosma, se o frango está gosmento e com cheiro ruim, com certeza não serve pra consumo.

Não tem limão siciliano, vinagre de maçã, sal grosso ou reza brava que dê jeito numa carne que já entrou em processo de decomposição. Aquele cheiro azedo ou de enxofre é a natureza te dando um aviso bem claro: “não come isso, senão seu próximo destino é a emergência do hospital”.

E aí a gente entra na regra de ouro da cozinha moderna. Aquela que a sua avó provavelmente não vai aceitar.

Não lave o frango. Sério, não faça isso.

Eu sei, parece anti-higiênico. A nossa intuição humana diz que água corrente limpa as coisas. A gente lava a mão, lava a alface, lava a maçã. Então por que não lavaríamos um pedaço de carne crua?

Pensa comigo. O frango cru é, por natureza, um festival de bactérias invisíveis a olho nu. As grandes estrelas desse show macabro são a Salmonella e a Campylobacter.

Quando você coloca esse frango debaixo da torneira e abre a água, o que você acha que acontece? A água bate na carne e espirra tudo na pia, na parede, no chão, nos utensílios.

E não espirra pouco não.

Você acaba de criar uma nuvem invisível de gotas contaminadas. É como se o frango tivesse dado um espirro microscópico na sua cozinha inteira. Essas gotículas voam numa área de até um metro ao redor da sua pia. Elas caem na sua esponja (que já é um hotel de bactérias), caem no escorredor de pratos, grudam na sua roupa, na faca que você deixou ali do lado e, pior cenário possível, caem em cima daquela salada de tomates que você já cortou e deixou dando sopa na bancada.

Isso se chama contaminação cruzada. Você pegou um problema que estava contido num pedaço de carne e que seria 100% resolvido com o calor do fogo e espalhou pela sua cozinha inteira. A água da torneira não mata bactéria. Ela só dá uma carona pra elas se espalharem. A única coisa, a única mesmo, que elimina o risco do frango cru é a temperatura. O fogo.

“Ah, mas e se eu usar vinagre e limão pra matar os germes e guardar o frango limpo?”

Outro clássico. E outro erro brutal que detona a qualidade da sua comida.

Vamos falar um pouco sobre o que acontece quimicamente quando você espreme aquele limão ou joga vinagre na carne crua e deixa ela lá, marinando horas a fio ou pior, guarda na geladeira desse jeito.

O ácido não é um desinfetante potente o suficiente para esterilizar uma carne. Ele não vai matar a Salmonella. Sabe o que ele vai fazer? Ele vai começar a cozinhar o frango a frio.

Exatamente. É o mesmo princípio do ceviche. O ácido desnatura as proteínas da superfície da carne. Se você faz essa “limpeza” com ácidos e guarda o frango na geladeira, as proteínas vão quebrando, quebrando, e quando você finalmente for cozinhar, a textura vai estar detonada. O frango começa a esfarelar, com uma cor cinza depressiva e uma consistência que lembra papelão molhado mastigado.

Você não limpa o frango com limão. Você só estraga a textura dele. Limão e vinagre são ingredientes maravilhosos para temperar, dar acidez e brilho ao sabor, mas devem ser usados na marinada pelo tempo correto (geralmente não mais que um par de horas pra pedaços menores) e pelo motivo certo: sabor, não desinfecção.

Então, se água espalha bactéria e limão estraga a textura, como a gente garante que o frango tá seguro pra comer?

Temperatura.

Para que o frango esteja totalmente seguro para o consumo, o interior dele precisa atingir 74°C (ou 165°F, se você usar termômetros gringos). Nesse ponto, qualquer bactéria nociva que estava ali vivendo a vida louca simplesmente morre. Fim de papo.

E aqui vai uma dica de ouro de quem já viu muita sola de sapato ser servida no jantar: pare de adivinhar a temperatura cortando o bife no meio pra ver “se tá sangrando”. Toda vez que você faz um corte no meio do peito de frango que tá na frigideira, você deixa todos os sucos internos escaparem pro fundo da panela. O resultado é aquela carne seca que você tem que empurrar com um gole de guaraná pra conseguir engolir.

Compra um termômetro culinário. É barato, vende em qualquer lugar hoje em dia e muda a sua vida na cozinha. Espetou no meio da parte mais grossa da carne, bateu 74°C? Tira do fogo na mesma hora. Você acabou de garantir que não vai matar ninguém de infecção intestinal e, de quebra, não transformou a ave numa bucha.

E já que entramos no território de fazer as coisas do jeito certo, vamos resolver o maior dilema culinário do dia a dia. Como, afinal, fazer um frango suculento de verdade? Sem apelar pra banhos de vinagre ou crendices populares?

A mágica começa antes mesmo do frango ver a panela.

Primeiro: seque o seu frango. Lembra que eu falei pra não lavar? Pois é, você vai tirar ele da embalagem e, se tiver umidade na superfície (aquela água natural do pacote, não gosma), você vai pegar papel toalha e dar umas batidinhas pra secar bem a carne.

Por quê? Porque a umidade é a inimiga número um do sabor de panela. Se você bota um peito de frango molhado na frigideira quente, a água vai evaporar primeiro. O frango vai cozinhar no próprio vapor, ficando branco e triste. Se a superfície estiver seca, a carne encosta direto no metal quente e começa a famosa Reação de Maillard, aquele processo químico que cria aquela crosta dourada, cheia de sabor de tostado.

Segundo passo para um frango suculento: salga a seco. Ou dry brine, se quiser gourmetizar o termo.

Em vez de jogar o sal na hora de ir pro fogo, salga os pedaços de frango (com uma quantidade generosa, mas sem exageros) umas boas horas antes. Deixa ele lá, num prato na geladeira, pegando aquele sal. Nas primeiras horas, o sal vai puxar a umidade pra fora. Mas depois, e essa é a parte genial, a carne reabsorve esse líquido já salgado, temperando o frango de dentro pra fora e alterando a estrutura das proteínas para que elas segurem mais água durante o cozimento. O resultado? Um frango temperado e úmido, mesmo se você passar um minutinho do ponto no fogo.

Terceiro: a panela tem que estar quente. Não morna. Quente. Coloca um fio de óleo ou azeite, deita o frango ali e… esquece ele. Não fica cutucando, virando a cada dez segundos, apertando com a espátula (Nunca aperte a carne contra a panela, você tá literalmente espremendo o suco dela fora). Deixa criar a crosta dourada de um lado, vira com calma, doura o outro.

E por último, o passo que 90% das pessoas ignora porque a fome bate mais forte: o descanso.

Tirou o frango da frigideira? Coloca numa tábua e não encosta a faca nele por uns 5 a 10 minutos (dependendo do tamanho do pedaço). Quando a carne tá no fogo, o calor faz com que as fibras musculares se contraiam e empurrem todos os líquidos pro centro do pedaço. Se você corta na mesma hora que sai da panela, parece uma represa estourando aquele suco todo escorre pela tábua e sua carne fica seca na hora. Se você deixa ela quieta descansando, a temperatura vai caindo, as fibras relaxam e os sucos se redistribuem por todo o pedaço de maneira uniforme.

A ciência culinária tá aí pra facilitar nossa vida, não pra complicar.

A avó tinha razão sobre o poder do limão pra temperar, mas tava enganada sobre a função higiênica dele.

Não esquece, nunca lave o frango.

Boa discussão em família. Rs